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12 de janeiro de 2026Quando a vida não cabe nas margens: o chamado da “terceira margem”
Há contos que a gente lê. E há contos que nos leem.
“A terceira margem do rio”, de Guimarães Rosa, é um desses textos raros: ele não explica; ele abre. Ele não fecha; ele aproxima. Ele não oferece respostas prontas; ele nos coloca diante de um mistério que parece antigo — e, ao mesmo tempo, íntimo.
O que acontece (em poucas linhas)
Em “A terceira margem do rio”, o pai manda fazer uma canoa e, sem explicação, passa a viver no rio, indo e vindo, mas sem voltar para a margem (sem retornar à vida “normal”) e sem ir para “a outra margem” (sem partir para outro lugar). Ele fica numa espécie de entre-lugar. O narrador (o filho) cresce orbitando essa decisão, tentando entender, sustentando uma fidelidade silenciosa — até o momento em que é convidado (sem palavras) a ocupar o lugar do pai. E não consegue.
Qual é a mensagem do texto?
A “mensagem” não é uma moral pronta; é um mistério humano colocado em forma de narrativa. Mas dá para enxergar alguns eixos centrais:
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Existe algo em nós que não cabe nas margens
As margens são as formas aceitas de viver: família, trabalho, papéis, explicações, “normalidade”. O pai encarna uma decisão radical: não aderir. O conto aponta para a experiência de que há dimensões da existência que não se traduzem em justificativas. -
O indizível governa mais do que a fala
O pai quase não explica nada. O conto trabalha com o peso do silêncio, do não-dito, do que não se resolve por conversa. É um retrato de como certas escolhas — ou chamados — são incomunicáveis, e mesmo assim reais. -
O amor pode virar destino e ferida ao mesmo tempo
O filho ama/admira/teme o pai e fica preso a uma espécie de voto íntimo: viver à sombra da canoa. Isso vira culpa, dever, lealdade, e também um tipo de prisão: “se eu falhar, falho com algo sagrado”. É um conto sobre a herança invisível que a família deposita nos nossos ombros. -
O “meio do rio” é uma metáfora da condição humana
Nem “aqui” nem “lá”, nem resolvido nem encerrado. A vida como travessia sem síntese final. -
A canoa é uma existência em estado de passagem permanente.
E então o conto faz o que os verdadeiros textos iniciáticos fazem: ele nos obriga a perguntar, em silêncio, sem pressa:
Qual é o meu rio?
Qual é a parte da minha vida que não cabe no mapa das explicações?
Onde eu sigo vivendo para cumprir margens — papéis, expectativas, “normalidades” — enquanto uma voz mais funda me chama?
A terceira margem como caminho
As margens, na linguagem do conto, podem ser lidas como as estruturas do mundo: o “certo”, o “esperado”, o “nomeável”. São seguras, mas às vezes estreitas. O rio, por sua vez, é a vida em movimento: aquilo que muda, que escapa, que não se deixa aprisionar em uma definição.
A “terceira margem” surge como símbolo de um estado de consciência muito particular: nem fuga do mundo, nem submissão às suas formas. Um lugar interior onde a alma aprende a sustentar o mistério sem desespero. Um lugar em que a presença vale mais do que a justificativa.
É por isso que tanta gente termina esse conto com uma sensação estranha — como se algo tivesse sido tocado por dentro. Porque, de algum modo, todos nós conhecemos esse entre-lugar:
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quando uma fase termina, mas a próxima ainda não começou;
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quando o coração já não consegue mentir, mas a vida ainda não se reorganizou;
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quando um chamado nasce e você não tem linguagem para explicá-lo.
O filho: a alma diante do enigma
Se o pai representa o gesto radical do mistério, o filho representa algo igualmente humano: a tentativa de compreender, sustentar, honrar. O filho cresce como guardião de uma ausência. E isso, por si só, é uma iniciação: porque amadurecer não é apenas conquistar coisas — é aprender a conviver com perguntas que não têm resposta imediata.
Em certo momento, o conto nos conduz ao coração da travessia: o filho é chamado (sem palavras) a ocupar o lugar do pai. E ele recua. Não por falta de amor — talvez por excesso de humanidade. E é aí que o texto revela uma verdade delicada: nem todo chamado se cumpre quando chega. Alguns chamados ficam em nós como semente, esperando tempo, corpo, maturidade.
A iniciação, muitas vezes, não é uma vitória. É um espelho.
Um convite suave para você
Talvez a beleza maior desse conto seja esta: ele não nos pede heroísmo. Ele nos pede verdade.
E a verdade, às vezes, começa bem pequeno.
Começa quando você percebe onde está forçando.
Onde está tentando “explicar” o que, na verdade, precisa ser sentido.
Onde está vivendo em função de uma margem — e se esquecendo do seu centro.
Se você permitir, faça uma pequena pausa agora.
Coloque a mão no coração.
Respire mais lento por alguns instantes, como se o ar passasse pelo peito.
E pergunte, com gentileza:
“Qual é a minha terceira margem hoje?”
“Qual é a minha canoa mínima — um gesto simples e essencial — para esta semana?”
Pode ser um limite. Pode ser um pedido. Pode ser descanso. Pode ser um encerramento. Pode ser começar algo que você vem adiando. Pode ser apenas silêncio com presença.
Uma jornada iniciática em 8 encontros
Eu transformei essa leitura em uma jornada curta e acolhedora: 8 encontros para atravessar o conto como um mapa interior, com prática de respiração focada no coração, perguntas guiadas de journaling e um plano simples de integração.
Nada de cobrança. Nada de pressa.
Apenas presença, coerência e um passo por vez.
Se o conto tocou algo em você — se você sente que existe uma parte da sua vida pedindo travessia — talvez este seja um bom momento para caminhar com cuidado, mas com decisão.
Convite:
Se você quiser, eu te acompanho nessa jornada.
Basta preencher o formulário de intenção para mentoria que eu vou ler com atenção e carinho, e avaliar se este é o momento de participar desta iniciação.
Porque há travessias que não pedem explicação.
Pedem apenas um sim — pequeno, verdadeiro — para o próximo movimento do coração.
Em Gratidão, Graça e Alegria,
Mônica Lampe




