
Existe uma pintura que o Criador refaz a cada amanhecer — e que só pode ser vista por quem decidiu, naquele dia, realmente acordar
21 de fevereiro de 2026Você não é “demais”: seu sistema nervoso só lê mais camadas do mundo
“Aqui estão os loucos. Os inadaptados. Os rebeldes. (…) Os que veem as coisas de forma diferente.”
— Rob Siltanen
Há um tipo de pessoa que você provavelmente já encontrou na vida. Talvez tenha sido na escola, aquela que não cabia em nenhuma carteira. Talvez seja alguém da sua família, o “excêntrico” de quem todos falam com um sorriso meio torto. Talvez — e aqui peço que você respire fundo — seja você mesma.
Essas pessoas incomodam. Não porque sejam “problema”. Mas porque enxergam demais.
O místico que capta um clima antes das palavras.
A artista que dá forma ao invisível.
A musicista que transforma dor em melodia e devolve ao mundo algo que ressoa fundo demais para ser “só som”.
A “louca” que faz perguntas que ninguém ousa sustentar.
E talvez a verdade seja simples, porém desconcertante: elas não estão fora da realidade — elas estão dentro dela por um ângulo que a maioria desaprendeu a sustentar.
O que significa “ver a realidade”?
O cérebro não registra a realidade. Ele a constrói.
A neurociência não descreve o cérebro como uma câmera neutra. Ela descreve o cérebro como um sistema preditivo de filtragem e previsão: ele não apenas recebe dados; ele antecipa, interpreta, seleciona e completa lacunas. Isso mantém você funcional, protegida do excesso, viva. (Uma referência importante aqui é a ideia do “cérebro preditivo” discutida por Andy Clark.)
Esse “filtro” é útil. Mas ele também vira prisão: o que é normal, o que é possível, o que “pode” ser sentido, o que “deve” ser calado.
Este sistema cria um “mundo editado”: o que é “normal”, “possível”, “permitido sentir”, “aceitável desejar”, “seguro ser”.
Algumas pessoas, porém, parecem nascer (ou desenvolver) um filtro mais poroso — uma abertura maior para nuances, sinais fracos, microexpressões, padrões emocionais e simbólicos.
Na psicologia positiva da personalidade e da criatividade, existe um conceito que conversa diretamente com isso: inibição latente (latent inhibition), um mecanismo que ajuda a ignorar estímulos previamente considerados irrelevantes. Estudos mostraram que baixa inibição latente pode aparecer associada a maior criatividade, originalidade — especialmente quando vem acompanhada de bons recursos cognitivos para integrar a avalanche (como inteligência, repertório, regulação emocional, apoio, sentido e capacidade de integração).
Em outras palavras: o mesmo “excesso de entrada” que pode desorganizar alguém… pode, em outro contexto, alimentar visão, originalidade e criação, o mesmo “volume alto” que em um contexto vira sofrimento… em outro pode virar visão.
Alta Sensibilidade não é doença: é um traço (e tem assinatura no cérebro)
Há também evidências para um traço chamado Sensory Processing Sensitivity (SPS), frequentemente traduzido como Alta Sensibilidade, ou PAS – Pessoa Altamente Sensível. Pesquisas sugerem que uma parcela da população (estimativas comuns ficam em torno de 15–20%) processa estímulos com mais profundidade e reage com mais intensidade a ambientes, emoções e sutilezas.
Pesquisas revisam esse fenômeno no contexto de “sensibilidade ambiental”, e há inclusive estudos de neuroimagem sugerindo diferenças na forma como certos cérebros respondem a pistas sociais e afetivas.
Em estudos com fMRI, pessoas altas em SPS mostraram maior responsividade em redes ligadas a atenção, empatia e integração de informação social/emocional — como se o cérebro estivesse, de fato, “com o volume aumentado” para certas pistas do mundo.
Então quando você diz: “eu sinto demais”, pode haver algo muito concreto por trás: não um defeito — mas um estilo neurobiológico de processamento.
Em linguagem humana: algumas pessoas têm um sistema nervoso que “lê mais linhas” do mesmo texto.
Então, quando você diz “eu sinto demais”, pode existir um componente real: não drama — biologia + história + contexto.
Intuição: muitas vezes é percepção rápida de padrões
A palavra “intuição” foi sequestrada por dois extremos: misticismo ingênuo e ceticismo duro. Mas há um meio-termo honesto: muitas intuições são reconhecimento rápido de padrões.
Pesquisas sobre julgamentos a partir de “thin slices” sugerem que pessoas conseguem captar informações relevantes em poucos segundos de pistas não verbais. E modelos de decisão em especialistas mostram que, sob pressão, a mente reconhece “tipos de situação” e simula rapidamente um caminho.
Isso não torna toda intuição infalível — mas explica por que algumas pessoas “sabem” antes:
elas percebem sinais do presente quando ainda não virou linguagem coletiva.
O gênio disfarçado de inadaptação
“Eles não gostam de regras. E eles não têm nenhum respeito pelo status quo.”
— Rob Siltanen
Existe uma diferença fundamental entre quem quebra regras por impulso… e quem as quebra porque enxerga além delas.
A ciência da criatividade sugere que ideias originais costumam nascer do encontro entre duas forças no cérebro:
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uma rede mais “imaginativa”, associada a simulações internas e devaneio (frequentemente chamada de default mode network), e
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redes de controle cognitivo, que selecionam, lapidam e transformam o caos em forma. (aqui vale citar a genialidade de VAn Gogh que transformava o caos da vida em beleza).
Estudos de conectividade mostram justamente esse “casamento” entre imaginação e controle em cérebros mais criativos.
O que, na vida real, se parece com isso?
A artista que “vê” um quadro inteiro e depois encontra técnica para trazê-lo ao mundo.
A mentora que capta um padrão numa frase e devolve a pessoa a si mesma com precisão cirúrgica.
A “louca” que parece intensa — mas, na verdade, está percebendo camadas que os outros ainda não registraram.
Intuição: a “paranormalidade” que, muitas vezes, é percepção treinada
A palavra “intuição” costuma ser tratada como algo místico ou como algo suspeito. Mas a psicologia tem um meio-termo mais honesto: muitas intuições são reconhecimento rápido de padrões.
Há pesquisas clássicas mostrando que seres humanos conseguem fazer julgamentos surpreendentemente acurados a partir de “fatias finas” de comportamento (thin slices) — segundos de pistas não verbais.
E há modelos de decisão mostrando que especialistas, sob pressão, frequentemente escolhem bem não porque “pensaram em tudo”, mas porque reconheceram o tipo de situação e simularam internamente um curso de ação plausível.
O místico, às vezes, não está “adivinhando o futuro”.
Ele pode estar percebendo sinais minúsculos do presente — antes que eles virem evidência socialmente aceitável.
Estados elevados de Consciência: quando o coração abre a percepção (e isso também é estudado)
A Psicologia Positiva descreve emoções como interesse, gratidão, compaixão, amor, contentamento, alegria não como “enfeite”, mas como forças que ampliam a mente e constroem recursos internos (broaden-and-build).
A emoção de awe (assombro/admiração reverente), por exemplo, foi associada a uma sensação de “eu menor” e a maior comportamento pró-social em estudos experimentais.
E estados como mindfulness e certas práticas contemplativas têm um corpo robusto de pesquisa mostrando efeitos em atenção, regulação emocional e redes cerebrais — sem romantização: com benefícios e também com limites metodológicos bem discutidos.
Em linguagem simples: há estados em que a percepção fica mais limpa, mais ampla, mais integrada — e isso não é “fantasia”. É um modo diferente do sistema nervoso operar.
Psicologia Transpessoal: quando o sagrado parece loucura — e por isso exige discernimento e escuta
A Psicologia Transpessoal já afirmou com clareza algo que a clínica contemporânea também enfrenta: estados transpessoais podem parecer psicose por fora, e a diferença real costuma estar em critérios como integração, funcionalidade, estabilidade e suporte.
Há autores e revisões discutindo justamente essa borda — “emergência espiritual” versus psicopatologia — e a necessidade de avaliação cuidadosa, sem reduzir tudo a doença nem romantizar sofrimento.
Isso é importante: se experiências internas vêm com medo intenso, desorganização persistente, perda grande de sono, risco, vozes mandantes, impulsos de autoagressão, ou prejuízo severo na vida cotidiana, o caminho mais amoroso é buscar ajuda profissional qualificada.
Discernimento também é espiritualidade.
E a Física Quântica? Humildade, sim. “Prova do místico”, não.
A Física Quântica realmente derrubou a intuição ingênua de que o mundo é sempre sólido, previsível e “clássico”. Mas há um ponto crucial:
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Quântica descreve o comportamento físico em escalas microscópicas, e
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o motivo pelo qual o mundo cotidiano não parece “superposição” o tempo todo tem relação com processos como decoerência (interação com o ambiente que suprime interferências quânticas observáveis).
O uso mais honesto da quântica aqui é este: ela nos convida à humildade.
A realidade é mais estranha do que o senso comum supõe.
E isso abre espaço filosófico para respeitar a pergunta do místico — sem transformar metáfora em “prova”.
Mas ela nos lembra que o real é maior do que nossos modelos fáceis.
O que diferencia dom de sofrimento? Integração.
A fronteira entre expansão e desorganização existe — e a psicologia transpessoal discute isso ao tratar de experiências espirituais intensas e seu discernimento clínico. Há caminhos em que uma vivência amplia e integra; e há cenários em que a pessoa sofre, perde chão, perde função e precisa de suporte clínico.
Isso é essencial:
- não romantizar sofrimento como iluminação,
- nem reduzir profundidade humana a doença.
Por que eles transformam o que tocam?
“Você pode citá-los, discordar deles, glorificá-los ou vilipendiá-los. Mas a única coisa que você não pode fazer é ignorá-los. Porque eles mudam as coisas.”
— Rob Siltanen
Porque a transformação raramente nasce do conforto do consenso.
Ela nasce no limiar — onde o excesso de percepção encontra um coração capaz de integrar.
O místico pressente um padrão antes que vire linguagem.
A artista dá forma ao que o mundo ainda não sabe nomear.
A musicista organiza emoção em beleza.
A “louca” faz a pergunta que desmonta um sistema.
E, com apoio, prática e refinamento, o que parecia “demais” vira dom.
E você, onde está nessa história?
Se você se reconheceu aqui…
Talvez você seja “estaca redonda” nos buracos quadrados.
Talvez tenha tentado se lixar para caber.
Talvez tenha confundido dom com peso — e por isso se calou.
Você não está errada.
Você pode estar precisando de um método: corpo, respiração, limites, integração.
Porque sentir muito, por si só, não é virtude.
Virtude é cuidar do que sente e transformar isso em presença, criação e serviço.
Se este texto vibrou em você, a centelha já existe.
A pergunta agora é: o que você vai fazer com ela?
Se quiser, me mande “INTEGRAÇÃO” e eu te envio um mini-guia com práticas simples (respiração + limites emocionais) para transformar sensibilidade em caminho.
Este texto foi escrito baseado no poema de RobSiltanen e para para as que sentem demais, enxergam além e já não cabem em caixas que nunca foram feitas para elas.
Em gratidão, graça e alegria,
Mônica Lampe
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Desenvolvimento Humano Multidimensional
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Referências e leituras (base científica)
Neurociência, percepção e criatividade
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