Barnabé e o Coração Puro: a cura que chega quando o amor deixa de calcular

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Barnabé e o Coração Puro

A cura que chega quando o amor deixa de calcular

Há cenas que não precisam de longos discursos para revelar uma verdade.

Elas acontecem em poucos minutos, quase silenciosamente, e ainda assim permanecem dentro de nós como uma pergunta viva.

Em The Chosen, Barnabé manca há muitos anos. Seu corpo carrega a memória visível de uma limitação, talvez também de uma espera. Finalmente, ele se encontra diante daquele que poderia curá-lo. Diante do Mestre que, aos seus olhos, possui o poder de restaurar o que a vida feriu.

Tudo parece conduzir ao pedido esperado.

A cura da própria perna.

O fim da dor.

A recuperação daquilo que lhe foi negado durante tanto tempo.

No entanto, quando chega o instante decisivo, Barnabé olha para Shula, sua amiga, e não pede por si.

Pede que ela possa enxergar.

Na dramaturgia da série, esse breve deslocamento do olhar contém uma profunda teologia da compaixão: diante da própria ferida, Barnabé ainda consegue ver a ferida do outro (THE CHOSEN, 2023).

E talvez seja precisamente nesse gesto que o coração se revele.

Não quando declara sua pureza.

Mas quando, por um instante, deixa de se colocar no centro.

A escolha que revela o coração

Barnabé não parece calcular.

Não transforma o momento em uma negociação espiritual. Não pergunta se haverá cura suficiente para os dois. Não exige garantias. Não propõe uma ordem de atendimento na qual sua dor, por ser antiga, deva ser atendida primeiro.

Ele apenas vê Shula.

E, porque a vê verdadeiramente, seu pedido nasce.

Essa ausência de cálculo é o que confere verdade ao gesto.

Barnabé não troca sua cura pela cura dela. Não realiza um sacrifício para acumular mérito. Não se oferece como vítima para provar sua bondade. Não encena generosidade diante do Mestre.

Ele simplesmente se esquece de si por um instante.

Mas é importante compreender a delicadeza dessa expressão.

Esquecer de si, aqui, não significa abandonar-se.

Não significa considerar-se indigno de cura, negar as próprias necessidades ou transformar o sofrimento em virtude. Não é a repetição do antigo padrão pelo qual tantos seres sensíveis aprenderam a cuidar de todos enquanto desapareciam de si mesmos.

O esquecimento de Barnabé não nasce da ausência de amor-próprio.

Nasce da abundância de presença.

Seu gesto não diz:

“Eu não importo.”

Seu gesto diz:

“Ela também importa — e, neste momento, eu consigo vê-la.”

Há uma diferença imensa entre apagar-se e descentralizar-se.

Apagar-se é retirar a si mesmo do círculo da compaixão.

Descentralizar-se é compreender que existem outros seres dentro desse círculo.

O coração puro não é aquele que se exclui. É aquele que já não precisa ocupar sozinho o centro do mundo.

Quando a dor deixa de ser uma prisão

A dor possui uma força gravitacional.

Quando sofremos, é natural que a consciência se contraia ao redor daquilo que dói. O corpo chama por cuidado. A mente procura explicações. O coração deseja alívio.

Não há culpa nisso.

A dor precisa ser reconhecida. O sofrimento que não é acolhido não se torna sabedoria; muitas vezes, torna-se apenas silêncio endurecido.

Entretanto, existe um momento no amadurecimento interior em que a ferida deixa de ser o único horizonte possível.

Ela ainda existe, mas já não governa todo o olhar.

Barnabé continua mancando.

Sua limitação não desapareceu no instante em que ele viu Shula. Seu próprio corpo ainda necessitava de cura. No entanto, sua dor não o impediu de perceber a dor ao lado.

Esse talvez seja um dos sinais mais profundos da transformação humana: quando o sofrimento vivido não nos fecha inteiramente, mas começa a produzir em nós uma percepção mais delicada do sofrimento do mundo.

Há pessoas que, depois de atravessarem a noite, constroem muros.

Outras acendem lanternas.

Não porque tenham sofrido menos, mas porque permitiram que a dor ampliasse seu campo de visão.

A ferida pode tornar-se uma janela.

Não por romantização, mas por transmutação.

Quando integrada, ela deixa de repetir apenas: “Olhem para mim.”

E começa também a perguntar: “Quem mais está precisando ser visto?”

O amor que não faz contabilidade

Erich Fromm compreendeu o amor maduro não como sentimento passivo, mas como uma capacidade humana que envolve cuidado, responsabilidade, respeito e conhecimento do outro (FROMM, 2015).

Amar, nessa perspectiva, não é possuir.

Não é exigir que o outro confirme continuamente nossa importância.

Não é oferecer para depois cobrar.

Não é transformar o afeto em um contrato secreto.

Grande parte do que chamamos de amor ainda funciona como uma contabilidade invisível.

Eu lhe ofereci atenção; agora você me deve presença.

Eu cuidei de você; agora você deve reconhecer meu sacrifício.

Eu renunciei por você; agora sua vida deve justificar minha renúncia.

Eu o ajudei; portanto, você deve lembrar-se para sempre de quem o salvou.

Esse amor registra créditos.

Mantém arquivos.

Conserva recibos emocionais.

Pode apresentar-se como generosidade, mas permanece atento ao retorno.

O amor de Barnabé, naquele instante, não parece fazer contabilidade.

Ele não pede que Shula veja para que, depois, possa admirar sua bondade. Não a transforma em personagem secundária de sua própria grandeza moral.

Ele deseja que ela veja porque a visão é um bem em si.

É o amor que reconhece a vida do outro como valiosa, mesmo quando essa vida não está organizada ao redor de nós.

Em Mana — Alimento Luz, a imagem da nutrição pode ser percebida como um chamado àquilo que não se acumula para engrandecer quem oferece. O verdadeiro alimento luminoso não cria dependência nem exige veneração. Ele fortalece o outro para que também encontre sua própria fonte.

O alimento da alma não é moeda.

É circulação.

Aquilo que se guarda apenas para si torna-se reserva.

Aquilo que se oferece com sabedoria torna-se comunhão.

Assim também é o amor.

Quando calculado, ele diminui.

Quando partilhado sem posse, ele se multiplica.

A compaixão encarnada

Há uma diferença entre conhecer a linguagem da compaixão e tornar-se um corpo capaz de praticá-la.

A compaixão performada necessita ser vista.

Ela escolhe o melhor ângulo, a ocasião apropriada, a plateia favorável. Seu gesto pode até produzir algum bem, mas carrega consigo a necessidade de reconhecimento.

A compaixão encarnada é diferente.

Muitas vezes, ela nem percebe que está sendo generosa.

Ela não se observa enquanto ama.

Não transforma cada cuidado em evidência da própria evolução.

Não interrompe o gesto para contemplar a imagem que está produzindo.

Apenas responde à vida.

É como a mão que ampara uma criança antes que ela caia. Como quem cobre alguém adormecido durante a noite. Como quem oferece água sem transformar a sede do outro em espetáculo.

Essa compaixão não nasce da obrigação de parecer boa.

Nasce da intimidade com a interdependência.

Ela compreende que a dor de um ser nunca é completamente estrangeira. O outro não é um território separado, mas uma expressão singular da mesma vida que respira em nós.

O coração puro não é ingênuo.

Ele pode reconhecer perigos, estabelecer limites e retirar-se de relações destrutivas. Pureza não significa ausência de discernimento.

Significa ausência de duplicidade.

O coração puro não oferece enquanto planeja dominar.

Não acolhe enquanto prepara a cobrança.

Não cura para criar dívida.

Ele age inteiro.

O símbolo da visão restaurada

Não é indiferente que Barnabé peça a restauração da visão de Shula.

Na tradição bíblica, ver raramente significa apenas possuir olhos fisicamente funcionais. A visão é também símbolo de consciência, reconhecimento, revelação e despertar.

No capítulo 9 do Evangelho de João, a cura do homem cego ultrapassa o acontecimento físico e se transforma em uma investigação sobre quem verdadeiramente vê. Alguns possuem olhos saudáveis, mas permanecem incapazes de reconhecer o que está diante deles. Outros, antes privados da visão, passam a perceber dimensões da verdade que os considerados sábios não conseguem admitir (BÍBLIA, João 9).

A cegueira, nesse contexto, não pertence apenas aos olhos.

Também pode habitar as certezas.

Pode instalar-se no julgamento, no orgulho, no medo e na necessidade de defender uma visão estreita do sagrado.

Há cegueiras que não escurecem o mundo.

Escurecem o coração.

Não vemos a pessoa diante de nós; vemos nossas projeções sobre ela.

Não vemos a Terra; vemos recursos.

Não vemos os animais; vemos produtos.

Não vemos o sofrimento; vemos inconvenientes.

Não vemos o mistério; vemos algo que precisa ser explicado e controlado.

Ao pedir que Shula enxergue, Barnabé pede mais do que a restauração de uma função.

Pede que o mundo lhe seja devolvido.

Pede que a luz volte a tocar suas formas.

Pede que os rostos tenham contornos, que os caminhos possuam profundidade, que as cores regressem à existência.

Pede que ela participe de uma dimensão da vida que, até então, lhe chegava de outra maneira.

E, nesse mesmo gesto, Barnabé torna visível uma realidade que talvez estivesse oculta para todos: a natureza de seu próprio coração.

Shula recebe a possibilidade de enxergar.

Nós recebemos a possibilidade de compreender o que significa ver.

O coração que vê antes de julgar

Existe um olhar que classifica.

Ele mede, compara, condena, hierarquiza.

Pergunta quem merece mais, quem chegou primeiro, quem possui maior pureza, quem está certo, quem pertence e quem deve ser excluído.

Há também um olhar que acolhe.

Não porque ignore a verdade, mas porque a contempla sem reduzir o outro ao seu erro, à sua deficiência, à sua história ou à sua dor.

Esse é o olhar que, simbolicamente, se aproxima do princípio mariano presente em Mary: a consciência que sustenta a vida antes de exigir dela uma forma perfeita.

O coração mariano não é uma sentimentalidade passiva.

É uma força de gestação.

Ele sabe permanecer diante daquilo que ainda não floresceu. Reconhece que todo ser carrega processos invisíveis, medos não pronunciados e batalhas que não se mostram na superfície.

Esse coração não pergunta apenas:

“O que há de errado com você?”

Ele pergunta:

“O que, em você, ainda precisa ser amado para poder nascer?”

Maria, como arquétipo, representa a disponibilidade para acolher o mistério sem possuí-lo. Ela não produz a luz; oferece-lhe espaço para encarnar.

Da mesma maneira, a compaixão não cria o valor do outro.

Apenas reconhece o valor que já estava ali.

Barnabé não concede dignidade a Shula ao pedir sua cura. Ele reconhece uma dignidade anterior ao pedido.

Ele a vê antes mesmo que ela possa ver.

Talvez esse seja um dos mais elevados gestos de amor: sustentar, por algum tempo, a visão da integridade de alguém quando essa pessoa ainda não consegue contemplá-la por si mesma.

Aquilo que recebemos sem pedir

Depois de pedir a cura de Shula, Barnabé também recebe a cura de sua perna.

Na arquitetura narrativa da cena, sua restauração chega não como objeto de barganha, mas como dádiva.

Isso não deveria ser transformado em uma fórmula.

A vida não funciona como um mecanismo de recompensa imediata no qual toda renúncia produz um milagre visível. Seria cruel sugerir que aqueles que continuam sofrendo não foram suficientemente generosos ou não possuíram fé bastante.

O mistério não é uma máquina de trocas espirituais.

Nem toda pessoa que prioriza o outro receberá, em seguida, aquilo de que necessita.

Nem toda oração será respondida na forma desejada.

Nem toda ferida desaparecerá.

Por isso, a cena não deve ser lida como promessa de recompensa, mas como símbolo.

Quando o coração deixa de calcular, algo já começa a ser curado, mesmo antes de qualquer mudança externa.

A consciência se liberta de uma prisão antiga: a obrigação de organizar toda a realidade ao redor de suas próprias necessidades.

Isso não elimina a dor, mas transforma nossa relação com ela.

Barnabé não é curado porque realizou o gesto correto em um sistema cósmico de premiação.

Sua cura, na narrativa, revela uma graça que excede o pedido.

Ele pediu luz para outra pessoa.

E a luz alcançou também o lugar em que ele sofria.

Talvez a graça possua essa natureza.

Ela não obedece à matemática do merecimento.

Não chega porque fomos impecáveis.

Chega porque a vida, em sua profundidade, contém uma generosidade que não pode ser controlada.

Esquecer de si sem abandonar-se

A história de Barnabé também exige um cuidado essencial.

Durante séculos, especialmente mulheres, cuidadores, pessoas sensíveis e membros de comunidades orientadas pelo sacrifício foram ensinados a desaparecer em nome do amor.

Aprenderam que ser bom significava não precisar.

Que cuidar de si era egoísmo.

Que estabelecer limites era falta de compaixão.

Que suportar tudo era sinal de elevação espiritual.

Esse não é o coração puro.

É o coração exaurido.

O amor que exige o desaparecimento permanente de um ser não é sagrado. Uma espiritualidade que glorifica o esgotamento, o abuso ou a anulação pessoal perdeu o contato com a fonte da vida.

O gesto de Barnabé é luminoso justamente porque parece livre.

Ele não é forçado a escolher Shula.

Não é coagido por culpa.

Não acredita que seu sofrimento não tenha importância.

Seu gesto nasce da liberdade interior.

Somente quem reconhece a própria dignidade pode colocar o outro em primeiro lugar sem transformar esse movimento em autodestruição.

Esquecer de si por amor, em um instante de presença, é diferente de viver esquecido de si.

O primeiro gesto pode ser graça.

O segundo é abandono.

A compaixão madura mantém abertas as duas vias: permite-nos ver o outro sem deixar de existir e cuidar de nós sem perder a capacidade de enxergar o mundo.

A libélula e o nascimento de outro olhar

A libélula passa parte de sua existência sob as águas.

Antes de conhecer o céu, habita a profundidade. Seu primeiro mundo é líquido, denso, limitado por margens que parecem definitivas.

Então chega o tempo da metamorfose.

Ela emerge.

O corpo que conhecia apenas a água encontra o ar. Aquilo que antes rastejava ou nadava descobre a leveza das asas. O mundo não é mais o mesmo porque o próprio modo de percebê-lo mudou.

Em A Libélula I e II, essa imagem pode ser sentida como metáfora de uma consciência que atravessa diferentes estados de percepção sem desprezar nenhum deles.

A libélula não nega a água para voar.

Ela integra a profundidade ao movimento.

Barnabé também atravessa uma metamorfose do olhar.

Antes mesmo que seu corpo seja restaurado, sua consciência já demonstra possuir asas.

Ele poderia permanecer submerso na própria dor. Poderia enxergar apenas a limitação de sua perna, os anos de espera, as experiências perdidas, a injustiça acumulada.

Mas, no momento decisivo, ele ultrapassa a margem de si.

Seu olhar pousa em Shula.

Essa é uma forma de voo.

Voar não é abandonar a condição humana. É ampliar o campo de percepção até que a dor pessoal deixe de ocultar inteiramente a paisagem.

O coração cria asas quando descobre que há outros mundos além de sua própria ferida.

E, paradoxalmente, ao deixar de olhar apenas para si, Barnabé não se perde.

Ele se encontra em uma dimensão mais ampla.

Pureza não é perfeição

Quando ouvimos a expressão “coração puro”, podemos imaginar alguém sem contradições, desejos, medos ou sombras.

Mas pureza não é perfeição psicológica.

Não é ausência de feridas.

Não é uma personalidade que nunca sente raiva, inveja, cansaço ou necessidade.

Pureza é transparência de intenção.

A água pura não é aquela que nunca tocou a terra. É aquela que continua capaz de refletir a luz.

O coração puro pode estar cansado.

Pode necessitar de cuidado.

Pode carregar perguntas.

Pode até hesitar.

Mas não utiliza o amor como instrumento de domínio.

Não se aproxima do outro para alimentar secretamente a própria imagem.

Não oferece bondade como isca.

Sua pureza reside em não duplicar o gesto.

Barnabé deseja a cura de Shula.

Seu pedido não esconde outro pedido.

Ele não diz “cura-a” querendo dizer “admira-me”.

Não diz “ajuda-a” querendo dizer “prova que eu sou especial”.

Seu coração e sua palavra apontam para a mesma direção.

Essa unidade interior é uma forma de pureza.

A cura que começa antes do milagre

Talvez a cura de Barnabé tenha começado antes que sua perna fosse restaurada.

Talvez tenha começado no instante em que sua dor deixou de ocupar todo o espaço de sua consciência.

Há enfermidades que pertencem ao corpo.

Outras pertencem ao modo como o eu se fecha ao redor de si mesmo.

Não se trata de afirmar que toda doença possui origem emocional ou espiritual. Essa ideia, além de simplista, pode gerar culpa e crueldade.

O corpo possui sua própria história, sua biologia, seus limites e mistérios. A medicina, a psicoterapia, o cuidado comunitário e a espiritualidade podem oferecer formas diferentes e complementares de acompanhamento.

Mas existe uma cura da consciência que pode acontecer mesmo quando o corpo continua ferido.

Ela começa quando deixamos de ser definidos exclusivamente por aquilo que nos falta.

Quando percebemos que ainda podemos amar.

Ainda podemos oferecer presença.

Ainda podemos participar da vida.

Ainda podemos reconhecer beleza.

Ainda podemos ver alguém.

A dor diz: “Você é apenas esta ferida.”

A consciência responde: “Esta ferida faz parte de mim, mas não contém tudo o que sou.”

Barnabé manca, mas seu coração caminha.

Seu corpo espera, mas sua compaixão não está paralisada.

Antes que o milagre toque sua perna, algo nele já se movimenta em direção à liberdade.

O verdadeiro alimento do coração

A humanidade acumulou inúmeros conhecimentos sobre espiritualidade.

Conhecemos métodos, símbolos, textos, escolas, linhagens e mapas da consciência. Ainda assim, continuamos famintos por gestos simples de humanidade.

Talvez porque a alma não se alimente apenas de ideias elevadas.

Ela necessita de presença.

Necessita ser vista.

Necessita encontrar alguém que, diante de sua dor, não pergunte imediatamente o que receberá em troca.

O verdadeiro Mana, o alimento-luz, pode manifestar-se na forma de um olhar que não abandona.

Uma palavra que não invade.

Um silêncio que não julga.

Uma mão que ajuda sem humilhar.

Uma amizade que não transforma vulnerabilidade em dívida.

Há alimentos que sustentam o corpo.

Há outros que recordam ao ser que ele continua pertencendo à vida.

Barnabé oferece a Shula esse segundo alimento antes mesmo que a cura aconteça.

Ao pedir que ela veja, ele lhe diz, sem palavras:

“Sua experiência importa.”

“Sua alegria importa.”

“O mundo também deve abrir-se para você.”

Esse reconhecimento é alimento.

E talvez toda cura profunda necessite, em algum nível, desse nutriente invisível: a confirmação de que não estamos sozinhos e de que nossa existência é percebida por outro coração.

Quando o olhar se torna oração

Há orações pronunciadas com palavras.

Há outras realizadas pelo modo como olhamos.

O olhar que reconhece o outro pode tornar-se uma forma de bênção.

Não porque possua poderes mágicos, mas porque rompe a violência da invisibilidade.

Muitos seres atravessam a vida sem serem verdadeiramente vistos.

São percebidos por sua função, por sua aparência, por sua utilidade ou por suas limitações.

A mãe é vista apenas como aquela que cuida.

O trabalhador, apenas como aquele que produz.

A pessoa doente, apenas como um diagnóstico.

A pessoa com deficiência, apenas como uma falta.

A criança, apenas como um projeto de adulto.

O idoso, apenas como memória.

O animal, apenas como recurso.

A Terra, apenas como matéria disponível.

Ver verdadeiramente é devolver profundidade à existência.

Barnabé não vê apenas a cegueira de Shula.

Ele vê Shula.

Essa diferença contém uma revolução ética.

A compaixão não reduz o ser àquilo que deseja curar.

Ela reconhece uma inteireza anterior à ferida.

Talvez seja assim que o Cristo olha: não apenas para o sintoma, para o pecado, para a queda ou para a exclusão, mas para a imagem ainda intacta que pulsa por trás de todas as camadas.

O olhar crístico não pergunta apenas:

“O que aconteceu com você?”

Ele também recorda:

“Quem é você, antes de tudo aquilo que lhe aconteceu?”

O convite deixado pela cena

Talvez a pergunta mais evidente seja:

“Eu seria capaz de fazer o mesmo?”

Mas essa pergunta pode rapidamente transformar a cena em um novo instrumento de julgamento contra nós mesmos.

Talvez não saibamos o que faríamos.

Talvez, diante de uma dor antiga, pedíssemos primeiro por nossa própria cura.

Isso não nos tornaria indignos.

Há momentos em que pedir por si é um ato necessário de verdade.

Quem está se afogando precisa, antes, respirar. Quem foi ensinado a desaparecer talvez precise aprender a pronunciar o próprio nome. Quem nunca recebeu cuidado pode necessitar acolher-se antes de conseguir oferecer presença sem ressentimento.

Por isso, a pergunta mais fértil talvez não seja se reproduziríamos exatamente o gesto de Barnabé.

Talvez seja:

Diante de minha própria dor, ainda consigo perceber que outros seres existem?

Meu sofrimento tornou-se a única janela pela qual observo o mundo?

Quando ajudo, espero secretamente ser reconhecido?

Consigo alegrar-me com a cura de alguém quando a minha ainda não chegou?

Meu amor oferece liberdade ou cria dívidas?

Sou capaz de olhar para o outro sem abandonar a mim mesmo?

Não precisamos responder com culpa.

As perguntas não chegam para nos condenar.

Chegam como pequenas aberturas no casulo.

A transformação do coração raramente acontece em um único gesto heroico. Ela ocorre nas escolhas discretas de cada dia.

Quando escutamos sem preparar nossa resposta.

Quando oferecemos algo sem anunciar.

Quando celebramos a alegria de alguém sem compará-la com a nossa falta.

Quando cuidamos de nós para que nosso amor não se torne ressentimento.

Quando permitimos que a dor nos aprofunde, mas não nos feche.

O coração como espaço de comunhão

O coração puro não é aquele que jamais pensa em si.

É aquele que já não pensa apenas em si.

Ele se torna um espaço suficientemente amplo para que a própria vida e a vida do outro possam coexistir.

Não precisa escolher permanentemente entre autocuidado e compaixão.

Aprende a respirar em duas direções.

Recebe e oferece.

Recolhe-se e retorna.

Cuida de suas raízes e estende seus ramos.

Como o alimento-luz, nutre sem dominar.

Como o princípio mariano, acolhe sem aprisionar.

Como a libélula, emerge da profundidade para descobrir uma visão mais ampla.

O coração puro não foge da humanidade.

Encarnado, ele entra mais profundamente nela.

Reconhece que toda cura pessoal participa de uma cura maior e que todo gesto de compaixão verdadeira reorganiza, ainda que silenciosamente, a teia da vida.

Barnabé pede que Shula veja.

E, por meio desse pedido, somos convidados a enxergar.

Enxergar o amor que não calcula.

A generosidade que não faz de si um espetáculo.

A pureza que não exige perfeição.

A cura que começa quando a dor já não é capaz de nos impedir de amar.

Talvez o milagre mais profundo da cena não seja apenas uma mulher recuperar a visão ou um homem voltar a caminhar.

Talvez seja o instante em que um ser humano, carregando sua própria ferida, consegue olhar para outro ser e dizer, com a inteireza do coração:

“Que a luz alcance você.”

E a luz, ao passar por ele, também o toca.

Em gratidão, graça e alegria,

Mônica Lampe


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Referências

BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. Evangelho de João, capítulo 9.

FROMM, Erich. A arte de amar. São Paulo: Martins Fontes, 2015.

THE CHOSEN. Direção: Dallas Jenkins. Temporada 3, episódio 6: “Intensity in Tent City”. Estados Unidos, 2023. Streaming.

LAMPE, M. Maná – alimento luz. Guarulhos, SP. Ed. da autora, 2012.

LAMPE, M. Mary e a Libélua I – a jornada de uma semente estelar na terra. Guarulhos, SP. Ed. da autora, 2022.

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