Livre-arbítrio – Primeiro Véu : A Liberdade Que Nasce Quando o Ego Deixa de Se Absolver

Sob o Sinal da Rosa e da Cruz

2 de agosto de 2026

Majd Kamalmaz — O Homem que Escutava o Coração do Mundo

4 de agosto de 2026

Sob o Sinal da Rosa e da Cruz

2 de agosto de 2026

Majd Kamalmaz — O Homem que Escutava o Coração do Mundo

4 de agosto de 2026

Livre-arbítrio: a liberdade que nasce quando o ego deixa de se absolver

Há conceitos que chegam ao mundo como sementes de libertação e, lentamente, são apropriados pelo ego como instrumentos de defesa. O livre-arbítrio é um deles.

Em sua origem espiritual e filosófica, o livre-arbítrio nunca significou simplesmente: *“posso fazer o que desejo”*. Tampouco foi concebido como autorização metafísica para que cada indivíduo transforme suas preferências, impulsos ou conveniências em leis particulares. A verdadeira liberdade não é a ausência de limites, mas a capacidade de reconhecer os limites que habitam dentro de nós — e de não lhes obedecer cegamente.

Entretanto, na cultura contemporânea, a expressão “é o meu livre-arbítrio” tornou-se, muitas vezes, uma espécie de salvo-conduto do ego. É pronunciada para interromper o diálogo, afastar a responsabilidade, evitar a reparação e conferir aparência espiritual a decisões que podem ter nascido do medo, do narcisismo, da compulsão, da vingança ou da inconsciência.

O ego diz:

“Tenho o direito de escolher.”

A consciência pergunta:

“Quem, dentro de mim, está escolhendo?”

O ego afirma:

“Esta é a minha verdade.”

A Alma interroga:

“Essa verdade inclui as consequências que sua escolha produzirá na vida dos outros?”

O ego reivindica liberdade. A consciência exige responsabilidade.

E é precisamente nessa passagem — da reivindicação para a responsabilidade — que o livre-arbítrio começa a nascer.

1. O ser humano não é tão livre quanto imagina

A ideia popular de livre-arbítrio pressupõe um indivíduo plenamente consciente, soberano sobre si mesmo, capaz de avaliar objetivamente as alternativas e decidir sem interferências internas. Essa imagem, porém, não corresponde à realidade psíquica.

Somos atravessados por memórias, feridas, complexos, lealdades familiares, impulsos biológicos, necessidades de pertencimento, mecanismos defensivos, condicionamentos culturais e forças coletivas. Grande parte daquilo que chamamos de “minha escolha” pode ser apenas a repetição de uma história que ainda não reconhecemos.

A psicologia mostra que raciocinamos frequentemente para confirmar conclusões que, emocionalmente, já desejávamos alcançar. Também possuímos a tendência de atribuir nossos êxitos às próprias qualidades e nossos fracassos às circunstâncias ou às ações alheias. O ego não apenas escolhe: ele constrói narrativas para se inocentar depois da escolha. Kunda denominou esse fenômeno de raciocínio motivado, enquanto Bandura demonstrou como a linguagem, a transferência de culpa e a minimização das consequências podem produzir formas de desengajamento moral.(KUNDA, 1990; BANDURA, 1999).[^1]

Por isso, nem todo ato voluntário é um ato livre.

Uma pessoa pode fazer exatamente aquilo que deseja e, ainda assim, permanecer escrava do desejo. Pode romper relações em nome da liberdade, quando está apenas fugindo da intimidade. Pode acumular poder afirmando seguir seu propósito, quando está obedecendo a uma antiga ferida de desvalor. Pode ferir alguém em nome da autenticidade, quando está apenas descarregando conteúdos que não conseguiu elaborar.

A liberdade exterior de executar uma ação não demonstra liberdade interior.

Em muitos casos, o ego não exerce o livre-arbítrio. Ele exerce o arbítrio do condicionamento.

2. Jung: quem não conhece seus complexos chama compulsão de destino

Para a psicologia junguiana, o ego não é o soberano absoluto da psique. Ele é o centro do campo consciente, mas não a totalidade do ser. Ao seu redor e abaixo dele movem-se complexos relativamente autônomos, conteúdos da sombra, imagens arquetípicas e forças inconscientes capazes de alterar percepções, afetos e decisões.

Os complexos funcionam como pequenas personalidades dissociadas. Quando constelados, podem tomar temporariamente o lugar do ego, conduzir comportamentos e produzir reações que depois são justificadas pela consciência racional (JUNG, 1969, § 201-203).[^2] A Associação Internacional de Psicologia Analítica descreve os complexos como estruturas carregadas de afeto, capazes de interferir na memória, na fala e na ação consciente.

Jung escreveu que, “quando uma situação interior não se torna consciente, ela acontece fora, como destino” (JUNG, 1968, § 126, tradução nossa).[^3]

Aquilo que não reconhecemos em nós retorna como repetição.

A pessoa que desconhece sua sombra acredita estar escolhendo seus conflitos, quando talvez esteja recriando continuamente o mesmo drama. Aquela que não reconhece seu complexo de abandono pode chamar de livre escolha a decisão de abandonar antes de ser abandonada. Quem não integra sua necessidade de controle pode definir como discernimento a recusa de toda vulnerabilidade. Quem não contempla sua própria capacidade de crueldade atribui ao outro toda a escuridão da relação.

Nesse sentido, a individuação não elimina os condicionamentos, mas amplia o campo da consciência no qual eles podem ser reconhecidos, sustentados e transformados.

O livre-arbítrio junguiano não seria, portanto, uma propriedade automática do ego. Seria uma possibilidade que cresce à medida que o ego estabelece uma relação consciente com o inconsciente e se orienta pelo Si-mesmo — a totalidade psíquica — em vez de obedecer exclusivamente às próprias defesas.

A liberdade começa quando posso dizer:

“Existe raiva em mim, mas não sou obrigado a me tornar a minha raiva.”

“Existe medo em mim, mas não preciso transformá-lo em destino.”

“Existe uma ferida em mim, mas não preciso entregá-la, intacta, à geração seguinte.”

3. A psicologia transpessoal: vontade não é força bruta

Na psicologia transpessoal e na psicossíntese, a vontade não é compreendida como mera intensidade. Roberto Assagioli distinguiu a vontade forte da vontade sábia e da vontade boa. A força, isolada da sabedoria, pode tornar-se rígida, destrutiva e tirânica. A vontade amadurecida precisa incluir propósito, deliberação, decisão, planejamento e direção consciente da ação (ASSAGIOLI, 1973).[^4]

Assagioli observou que a força de vontade, quando não é equilibrada por outras funções psicológicas, pode causar danos tanto ao agente quanto àqueles que se tornam alvo de suas ações. Sua psicossíntese propõe a integração das dimensões pessoais e transpessoais, até que a vontade individual possa harmonizar-se com uma vontade mais abrangente.

Esse ponto é essencial: querer intensamente não significa querer livremente.

A vontade egoica pergunta:

“Como obtenho o que desejo?”

A vontade sábia pergunta:

“O que este desejo produzirá em mim, no outro e no mundo?”

A vontade boa pergunta:

“Essa escolha serve apenas à minha satisfação ou participa da evolução da vida?”

A perspectiva transpessoal não extingue a individualidade. Ela a descentraliza. O indivíduo deixa de ser um império fechado e começa a reconhecer-se como expressão singular de uma consciência maior. Sua liberdade já não pode ser medida apenas pela quantidade de opções disponíveis, mas pela qualidade de presença com que escolhe.

Liberdade, então, é a capacidade de não se identificar inteiramente com cada impulso que atravessa a personalidade.

Eu tenho um desejo, mas não sou apenas esse desejo.

Eu experimento uma emoção, mas não sou somente essa emoção.

Eu possuo uma história, mas não sou condenado a repeti-la.

Entre o impulso e a ação pode surgir um espaço.

Nesse espaço, nasce a testemunha.

E, com ela, nasce uma medida mais profunda de liberdade.

4. A neurociência: a escolha começa antes de sabermos que escolhemos

Experimentos clássicos de Benjamin Libet demonstraram que certos sinais cerebrais preparatórios podem surgir antes do momento em que uma pessoa relata ter tomado conscientemente a decisão de realizar um movimento simples (LIBET et al., 1983). Estudos posteriores também identificaram informações neurais relacionadas a decisões antes que estas alcançassem a consciência (SOON et al., 2008).[^5]

Esses resultados foram frequentemente divulgados como prova de que o livre-arbítrio seria uma ilusão. Contudo, essa conclusão ultrapassa aquilo que os experimentos efetivamente permitem afirmar.

Os estudos iniciais investigavam sobretudo decisões arbitrárias, como mover um dedo ou pressionar um botão, sem relevância moral ou existencial. Pesquisas posteriores sugeriram que o chamado potencial de prontidão pode refletir a acumulação de flutuações neurais até que um limiar motor seja atingido, não necessariamente uma decisão inconsciente já concluída (SCHURGER; SITT; DEHAENE, 2012). Além disso, decisões deliberadas e significativas parecem envolver mecanismos diferentes daqueles observados em escolhas motoras arbitrárias (MAOZ et al., 2019).[^6]

A neurociência não nos autoriza a declarar que somos absolutamente livres. Tampouco demonstrou que somos marionetes sem qualquer capacidade de autorregulação.

Ela nos oferece algo mais precioso: humildade.

A consciência não cria sozinha todos os pensamentos, afetos e impulsos que nela aparecem. Muitas escolhas começam em territórios anteriores à linguagem consciente. Porém, a consciência pode aprender a observar padrões, estabelecer valores, criar ambientes, interromper automatismos, reparar danos e cultivar novas disposições.

Talvez a liberdade humana não consista em criar cada impulso a partir do nada, mas em desenvolver a capacidade de relacionar-se conscientemente com aquilo que surge.

A neuroplasticidade, o aprendizado, a contemplação e a autorregulação mostram que os condicionamentos não são necessariamente sentenças perpétuas. Não escolhemos todas as cartas que recebemos, mas participamos da maneira como aprendemos a jogá-las.

E a física quântica não resolve esse problema por nós. Indeterminação não é sinônimo de liberdade. Um acontecimento aleatório não é, por isso, um acontecimento responsável. O acaso pode romper o determinismo, mas não produz automaticamente consciência moral.[^7]

5. O sufismo: ser livre do domínio do nafs.

No sufismo, a questão fundamental não é apenas saber se o ser humano pode escolher, mas descobrir qual dimensão do ser está realizando a escolha.

O nafs, em seus estados não purificados, busca gratificação, superioridade, posse, reconhecimento e controle. Ele pode apropriar-se até mesmo da linguagem espiritual para proteger seus interesses. A pessoa afirma seguir a vontade divina quando, talvez, esteja apenas sacralizando uma preferência pessoal.

A liberdade sufista não é a soberania do capricho, mas a libertação progressiva da tirania do nafs.

Isso não significa passividade. O Alcorão afirma que Deus não transforma a condição de um povo enquanto este não transforma aquilo que se encontra em si mesmo (ALCORÃO, 2005, 13:11).[^8] A transformação interior não é substituída pela confiança no Divino: ela é uma expressão dessa confiança.

Na reflexão de al-Ghazālī, a soberania divina e a responsabilidade humana coexistem numa tensão delicada. O ser humano não é o criador absoluto das condições da existência, mas responde por aquilo que acolhe, pretende e adquire moralmente por meio de suas ações. A tradição islâmica desenvolveu diferentes respostas para a relação entre predestinação, escolha e responsabilidade, sem reduzir o mistério a uma fórmula simples (GRIFFEL, 2009).

Para o sufismo, a pessoa mais livre não é aquela que consegue realizar todos os seus desejos. É aquela que já não precisa obedecer a cada desejo para sentir-se inteira.

Quando a vontade pessoal é purificada, ela não desaparece. Torna-se transparente.

Como a flauta de Rumi, deixa de produzir apenas o ruído de suas próprias tensões e permite que um sopro mais vasto a atravesse.

6. O xamanismo e as cosmologias relacionais: nenhuma escolha acontece sozinha

É necessário falar de “xamanismos” e de diferentes cosmologias indígenas, evitando transformar tradições diversas em um único sistema. Ainda assim, muitas dessas cosmovisões compartilham uma percepção fundamental: a pessoa não existe como unidade isolada, separada da terra, dos ancestrais, dos animais, das águas, dos espíritos e da comunidade.

A antropologia contemporânea descreve muitas ontologias animistas não como crenças ingênuas em objetos dotados de alma, mas como epistemologias relacionais, nas quais o conhecimento nasce do vínculo entre diferentes formas de vida e presença (BIRD-DAVID, 1999).[^9]

Nesse horizonte, a escolha não pertence exclusivamente ao indivíduo. Ela reverbera na teia.

Toda decisão pergunta:

“O que acontecerá com os que virão depois de mim?”

“O que esta ação devolverá à terra?”

“Que relação estou fortalecendo ou rompendo?”

“Que dívida deixarei para o meu povo, para os rios e para os ainda não nascidos?”

Estudos sobre reciprocidade entre comunidades humanas e natureza demonstram que várias tradições indígenas e locais compreendem o cuidado como uma aliança moral: recebe-se da terra e, por isso, algo deve ser devolvido. A reciprocidade reinsere o ser humano como participante ativo da natureza, não como proprietário exterior a ela (OJEDA et al., 2022).[^10]

A noção individualista de livre-arbítrio afirma:

“Minha vida, minha escolha.”

A consciência relacional responde:

“Sua vida é singular, mas nunca foi apenas sua.”

O corpo que escolhe foi formado pela terra, alimentado por incontáveis seres, educado por uma comunidade e sustentado por ecossistemas que não criou. Nenhuma escolha é inteiramente privada quando suas consequências atravessam outros corpos e tempos.

7. A Cabala: escolher é participar do reparo do mundo

Na tradição bíblica, a escolha aparece vinculada à vida: “escolhe, pois, a vida”, declara o Deuteronômio, colocando diante do ser humano a bênção e a maldição, a vida e a morte (BÍBLIA, 2002, Dt 30:19).

Não se trata de escolher qualquer coisa. Trata-se de escolher aquilo que serve à vida.

Maimônides afirma, nas leis do arrependimento, que a possibilidade de voltar-se para o caminho justo ou para o caminho destrutivo foi confiada ao ser humano (MAIMÔNIDES, 1987, cap. 5).[^11]

A Cabala acrescenta uma dimensão cósmica a essa responsabilidade. Na linguagem simbólica da tradição luriana, a criação encontra-se marcada pela ruptura dos recipientes e pela dispersão das centelhas. A ação humana pode colaborar com o “tikkun”— o reparo, a restauração, a reunião do que foi fragmentado — ou intensificar a separação.

O gesto deixa de ser apenas individual. Torna-se teúrgico: participa da relação entre os mundos.

A pergunta cabalística não seria somente:

“Sou livre para fazer isto?”

Mas:

“Esta ação reúne ou dispersa?”

“Liberta centelhas ou aprisiona ainda mais a luz?”

“Fortalece a Árvore da Vida ou alimenta as estruturas da separação?”

O livre-arbítrio não é um brinquedo oferecido ao ego. É uma parcela de responsabilidade concedida ao ser humano dentro da arquitetura do cosmos.

Escolher é tocar os mundos.

8. Rosacrucianismo: a liberdade como Grande Obra

O imaginário rosacruciano nasceu associado à reforma do conhecimento, à cura, à transformação espiritual e à união entre investigação da natureza e regeneração interior. Os primeiros manifestos rosacruzes não celebravam a vontade arbitrária do indivíduo, mas convocavam a uma reforma profunda das ciências, da religião e da sociedade. A tradição da Rosa e da Cruz tornou-se inseparável da imagem da alquimia espiritual: a transmutação do ser humano precedendo sua pretensão de transformar o mundo (YATES, 2002).[^12]

O chumbo não se torna ouro afirmando ter o direito de permanecer chumbo.

Ele precisa atravessar o fogo.

No caminho rosacruciano, liberdade é domínio de si em harmonia com as leis da natureza. Não significa controlar a vida, mas aprender a cooperar com seus ritmos e princípios. A Rosa floresce sobre a Cruz porque a consciência amadurece através da matéria, da disciplina, da provação e do serviço.

Assim, a pessoa que justifica sua impulsividade em nome do livre-arbítrio ainda não realizou a Grande Obra. Apenas coroou o material bruto.

O verdadeiro alquimista não pergunta somente o que deseja manifestar. Pergunta que substância interior está alimentando sua manifestação.

Toda criação carrega a assinatura secreta do seu criador.

9. Martinismo: da vontade separada à reintegração

O martinismo compreende a condição humana a partir do mistério da queda, do afastamento e da reintegração. Em Martinès de Pasqually, a humanidade participa de um drama cósmico no qual o uso desordenado das potências espirituais produz separação. A reintegração exige reconciliação com a origem e restauração da verdadeira função do ser humano (PASQUALLY, 2022).[^13]

Louis-Claude de Saint-Martin interiorizou esse caminho. Para o Filósofo Desconhecido, o grande templo da operação espiritual encontra-se no coração do ser humano. O homem de desejo não é aquele que deseja avidamente os objetos do mundo, mas aquele cujo desejo foi reunificado e orientado para o Princípio (SAINT-MARTIN, 2011). A tradição martinista descreve a reintegração como possibilidade fundada na centelha da origem divina preservada no ser humano.

A queda pode ser compreendida, simbolicamente, como o movimento pelo qual a vontade separada declara:

“Eu sou a minha própria origem.”

A reintegração começa quando essa vontade reconhece:

“Recebi a existência; portanto, minha liberdade não pode ser separada da responsabilidade diante da Fonte.”

O livre-arbítrio deixa então de ser poder de afastamento e torna-se poder de retorno.

Não retorno à infantilidade, à submissão cega ou à anulação da individualidade, mas retorno à justa relação entre a parte e o Todo.

10. O budismo: liberdade sem um eu soberano.

O budismo desfaz outra ilusão: a crença num eu fixo, independente e permanente que seria o proprietário absoluto das escolhas.

Os fenômenos surgem de causas e condições. Pensamentos, desejos, percepções e decisões emergem de uma rede de fatores interdependentes. Contudo, isso não conduz à irresponsabilidade. Ao contrário, torna a atenção à intenção ainda mais decisiva.

No Aṅguttara Nikāya, o Buda declara que é a intenção que ele chama de karma: pela intenção, age-se por meio do corpo, da fala e da mente (BODHI, 2012, AN 6.63).[^14]

A liberdade budista não consiste em garantir ao ego tudo aquilo que ele deseja. Consiste em libertar a mente da ignorância, da avidez e da aversão que condicionam o desejo.

Quanto menos consciente é a pessoa, mais suas ações são produzidas por reatividade.

Quanto mais desperta, maior a possibilidade de responder sem reproduzir automaticamente o sofrimento.

O budismo oferece, portanto, uma formulação paradoxal: não há um eu soberano e independente, mas há responsabilidade ética. Não existe uma entidade isolada, fora da causalidade, escolhendo a partir do nada; existe um fluxo de consciência que pode cultivar condições mais sábias e compassivas.

A liberdade não está fora da interdependência.

Ela amadurece dentro dela.

11. Cristo, Essênios e Terapeutas: a liberdade que se torna serviço

Na tradição do Cristo, a liberdade está ligada à verdade: é o conhecimento da verdade que liberta (BÍBLIA, 2002, Jo 8:32). Essa verdade não é apenas uma opinião pessoal. É um processo de desvelamento no qual máscaras, autoenganos e servidões interiores são trazidos à luz.

No Getsêmani, a expressão “não se faça a minha vontade, mas a tua” não representa a destruição da vontade humana. Representa sua passagem da autopreservação para a entrega consciente (BÍBLIA, 2002, Lc 22:42).

A vontade não é apagada. É consagrada.

Paulo também adverte que a liberdade não deve tornar-se ocasião para a satisfação egoica, mas converter-se em serviço mútuo pelo amor (BÍBLIA, 2002, Gl 5:13). O cristianismo místico, quando não deformado por estruturas autoritárias, compreende a liberdade como capacidade de amar sem ser governado pelo medo.

As comunidades associadas aos Essênios e os Terapeutas de Alexandria inseriam a vida espiritual em práticas de disciplina, estudo, comunhão e contemplação. As fontes antigas apresentam perspectivas complexas sobre destino, providência e ação humana; portanto, não se deve atribuir a esses grupos uma teoria única e moderna de livre-arbítrio. Ainda assim, seus modos de vida apontavam para uma liberdade conquistada mediante o domínio das paixões, o compromisso comunitário e a orientação da existência para o sagrado (JOSEFO, 1927; FÍLON DE ALEXANDRIA, 1941; TAYLOR, 2020).[^15]

A pessoa verdadeiramente livre não é aquela que vive sem vínculos. É aquela cujos vínculos já não nascem da posse.

Ela pode servir sem se escravizar.

Pode amar sem dominar.

Pode entregar-se sem desaparecer.

12. O livre-arbítrio como capacidade gradual

Talvez o erro central esteja em imaginar o livre-arbítrio como um objeto que todos possuem integralmente desde o nascimento.

É mais fecundo compreendê-lo como uma capacidade gradual.

Somos biologicamente condicionados, mas podemos conhecer parte de nossos condicionamentos.

Somos psicologicamente fragmentados, mas podemos integrar parte de nossa sombra.

Somos socialmente influenciados, mas podemos examinar as forças coletivas que falam através de nós.

Somos herdeiros de traumas, mas podemos interromper sua transmissão.

Somos interdependentes, mas podemos participar conscientemente das relações que nos constituem.

Não somos absolutamente livres.

Também não somos absolutamente determinados.

Habitamos uma faixa móvel entre a compulsão e a consciência.

Quanto maior a consciência, maior o campo da escolha.

Quanto maior a capacidade de sustentar desconforto, menor a necessidade de reagir.

Quanto maior a integração da sombra, menor a projeção sobre o outro.

Quanto maior a percepção da interdependência, mais profunda a responsabilidade.

O livre-arbítrio não é um ponto de partida. É uma obra.

13. Os sinais de uma escolha verdadeiramente livre

Uma escolha aproxima-se da liberdade quando não precisa negar os fatos para manter-se; quando consegue reconhecer seus motivos luminosos e sombrios; quando considera as consequências previsíveis; quando não desumaniza aqueles que serão afetados; quando permanece aberta à correção; quando assume a reparação pelos danos causados; e quando não utiliza a espiritualidade como linguagem de imunidade moral.

A escolha livre pode ser firme, mas não precisa ser arrogante.

Pode romper um ciclo, mas não precisa falsificar a história.

Pode estabelecer limites, mas não transforma automaticamente o outro em inimigo.

Pode dizer não, mas não usa o não para fugir de toda responsabilidade.

Pode escolher a si mesma, desde que não precise fingir que os outros deixaram de existir.

A responsabilidade não anula a liberdade. Ela a autentica.

Uma escolha sem responsabilidade é apenas poder.

Uma escolha acompanhada de consciência, consequência e reparação começa a tornar-se liberdade.

14. Uma nova definição

Poderíamos, então, propor:

> Livre-arbítrio é a capacidade progressiva de reconhecer os condicionamentos que nos atravessam, discernir entre impulso e consciência e escolher responsavelmente aquilo que amplia a vida, assumindo as consequências e reparando os danos produzidos.

Essa definição não humilha o ser humano. Liberta-o da fantasia de uma soberania que nunca possuiu e devolve-lhe uma dignidade mais real.

Não somos deuses isolados, criando o mundo a partir de vontades particulares.

Somos participantes de uma realidade viva.

Cada escolha atravessa o tecido da existência.

Cada palavra modifica o campo das relações.

Cada gesto pode aprofundar a ferida ou iniciar o reparo.

A verdadeira pergunta não é:

“Tenho o direito de fazer isso?”

Mas:

“Que dimensão de mim está escolhendo?”

“O que estou tentando evitar sentir?”

“Quem colherá as consequências?”

“Estou disposto a assumir e reparar aquilo que minha escolha produzir?”

“Essa decisão serve apenas à preservação do meu ego ou participa da expansão da vida?”

O ego chama de livre-arbítrio a permissão de seguir qualquer caminho.

A Alma chama de liberdade a capacidade de reconhecer qual caminho conduz à inteireza.

O ego acredita que ser livre é não responder a ninguém.

A consciência descobre que ser livre é responder pela marca que deixamos no universo.

Porque toda escolha é uma semente.

E ninguém pode invocar a liberdade para negar a floresta que ajudou a criar.

Em gratidão, graça e alegria,

Mônica Lampe


No Oráculo de Delfos havia uma inscrição “Conhece-te a ti mesmo”.

Aqui propomos o Mapa da Clareza para que  você descubra mais sobre si mesmo(a)!

MAPA DA CLAREZA


© 2026 Mônica Lampe. Todos os direitos reservados.
Desenvolvimento Humano Multidimensional
contato@monicalampe.com.br 
https://monicalampe.com.br


Este material  constitui propriedade intelectual protegida por lei (Lei nº 9.610/98 – Lei de Direitos Autorais).

É expressamente proibida a reprodução, distribuição, compartilhamento, adaptação ou qualquer outra forma de utilização deste conteúdo — seja integral ou parcial, em qualquer formato físico ou digital — sem autorização prévia e por escrito da autora.

O uso indevido deste material sujeita o infrator às sanções civis e penais previstas na legislação brasileira vigente.


Notas

[^1]: KUNDA, Ziva. The case for motivated reasoning. *Psychological Bulletin*, Washington, DC, v. 108, n. 3, p. 480-498, 1990. BANDURA, Albert. Moral disengagement in the perpetration of inhumanities. *Personality and Social Psychology Review*, v. 3, n. 3, p. 193-209, 1999.

[^2]: JUNG, Carl Gustav. A review of the complex theory. In: JUNG, Carl Gustav. *The structure and dynamics of the psyche*. 2. ed. Princeton: Princeton University Press, 1969. p. 92-104. *Collected Works*, v. 8.

[^3]: JUNG, Carl Gustav. *Aion: researches into the phenomenology of the Self*. 2. ed. Princeton: Princeton University Press, 1968. § 126. *Collected Works*, v. 9, parte 2.

[^4]: ASSAGIOLI, Roberto. *The act of will: a guide to self-actualization and self-realization*. New York: Viking Press, 1973.

[^5]: LIBET, Benjamin et al. Time of conscious intention to act in relation to onset of cerebral activity: the unconscious initiation of a freely voluntary act. *Brain*, Oxford, v. 106, n. 3, p. 623-642, 1983. SOON, Chun Siong et al. Unconscious determinants of free decisions in the human brain. *Nature Neuroscience*, v. 11, p. 543-545, 2008.

[^6]: SCHURGER, Aaron; SITT, Jacobo D.; DEHAENE, Stanislas. An accumulator model for spontaneous neural activity prior to self-initiated movement. *Proceedings of the National Academy of Sciences*, v. 109, n. 42, p. E2904-E2913, 2012. MAOZ, Uri et al. Neural precursors of decisions that matter: an ERP study of deliberate and arbitrary choice. *eLife*, v. 8, e39787, 2019.

[^7]: A indeterminação quântica indica que determinados resultados físicos não são descritos como consequências classicamente predeterminadas. Isso, por si só, não estabelece intenção, autoria ou responsabilidade moral. Aleatoriedade e liberdade consciente são conceitos distintos.

[^8]: ALCORÃO. *Tradução do sentido do Nobre Alcorão para a língua portuguesa*. Tradução de Helmi Nasr. Medina: Complexo do Rei Fahd, 2005.

[^9]: BIRD-DAVID, Nurit. “Animism” revisited: personhood, environment, and relational epistemology. *Current Anthropology*, Chicago, v. 40, supl. 1, p. S67-S91, 1999.

[^10]: OJEDA, Jaime et al. Reciprocal contributions between people and nature: a conceptual intervention. *BioScience*, v. 72, n. 10, p. 952-962, 2022.

[^11]: MAIMÔNIDES. *Mishneh Torah: Hilchot Teshuvah — Laws of Repentance*. Tradução de Eliyahu Touger. New York: Moznaim Publishing Corporation, 1987. Ver especialmente o capítulo 5.

[^12]: YATES, Frances A. *The Rosicrucian enlightenment*. London; New York: Routledge, 2002. Obra originalmente publicada em 1972.

[^13]: PASQUALLY, Martinès de. *Treatise on the reintegration of beings*. Tradução de Felix Mupidia Lonji. [S. l.]: Maweeja Nnangila, 2022. SAINT-MARTIN, Louis-Claude de. *Man: his true nature and ministry*. [S. l.]: Aziloth Books, 2011. Obra original publicada em 1802.

[^14]: BODHI, Bhikkhu. *The numerical discourses of the Buddha: a translation of the Aṅguttara Nikāya*. Boston: Wisdom Publications, 2012. Ver AN 6.63.

[^15]: JOSEFO, Flávio. *The Jewish War: books I-III*. Tradução de H. St. J. Thackeray. Cambridge: Harvard University Press, 1927. FÍLON DE ALEXANDRIA. On the contemplative life. In: COLSON, F. H. (trad.). *Philo*. Cambridge: Harvard University Press, 1941. v. 9. TAYLOR, Joan E. *Philo of Alexandria: on the contemplative life*. Leiden: Brill, 2020.


Referências

ALCORÃO. *Tradução do sentido do Nobre Alcorão para a língua portuguesa*. Tradução de Helmi Nasr. Medina: Complexo do Rei Fahd, 2005.

ASSAGIOLI, Roberto. *The act of will: a guide to self-actualization and self-realization*. New York: Viking Press, 1973.

BANDURA, Albert. Moral disengagement in the perpetration of inhumanities. *Personality and Social Psychology Review*, v. 3, n. 3, p. 193-209, 1999.

BÍBLIA. Português. *Bíblia de Jerusalém*. Nova edição revista e ampliada. São Paulo: Paulus, 2002.

BIRD-DAVID, Nurit. “Animism” revisited: personhood, environment, and relational epistemology. *Current Anthropology*, Chicago, v. 40, supl. 1, p. S67-S91, 1999.

BODHI, Bhikkhu. *The numerical discourses of the Buddha: a translation of the Aṅguttara Nikāya*. Boston: Wisdom Publications, 2012.

FÍLON DE ALEXANDRIA. On the contemplative life. In: COLSON, F. H. (trad.). *Philo*. Cambridge: Harvard University Press, 1941. v. 9.

GRIFFEL, Frank. *Al-Ghazali’s philosophical theology*. Oxford: Oxford University Press, 2009.

JOSEFO, Flávio. *The Jewish War: books I-III*. Tradução de H. St. J. Thackeray. Cambridge: Harvard University Press, 1927.

JUNG, Carl Gustav. *Aion: researches into the phenomenology of the Self*. 2. ed. Princeton: Princeton University Press, 1968. *Collected Works*, v. 9, parte 2.

JUNG, Carl Gustav. *The structure and dynamics of the psyche*. 2. ed. Princeton: Princeton University Press, 1969. *Collected Works*, v. 8.

KUNDA, Ziva. The case for motivated reasoning. *Psychological Bulletin*, Washington, DC, v. 108, n. 3, p. 480-498, 1990.

LIBET, Benjamin et al. Time of conscious intention to act in relation to onset of cerebral activity: the unconscious initiation of a freely voluntary act. *Brain*, Oxford, v. 106, n. 3, p. 623-642, 1983.

MAIMÔNIDES. *Mishneh Torah: Hilchot Teshuvah — Laws of Repentance*. Tradução de Eliyahu Touger. New York: Moznaim Publishing Corporation, 1987.

MAOZ, Uri et al. Neural precursors of decisions that matter: an ERP study of deliberate and arbitrary choice. *eLife*, v. 8, e39787, 2019.

OJEDA, Jaime et al. Reciprocal contributions between people and nature: a conceptual intervention. *BioScience*, v. 72, n. 10, p. 952-962, 2022.

PASQUALLY, Martinès de. *Treatise on the reintegration of beings*. Tradução de Felix Mupidia Lonji. [S. l.]: Maweeja Nnangila, 2022.

SAINT-MARTIN, Louis-Claude de. *Man: his true nature and ministry*. [S. l.]: Aziloth Books, 2011.

SCHURGER, Aaron; SITT, Jacobo D.; DEHAENE, Stanislas. An accumulator model for spontaneous neural activity prior to self-initiated movement. *Proceedings of the National Academy of Sciences*, v. 109, n. 42, p. E2904-E2913, 2012.

SOON, Chun Siong et al. Unconscious determinants of free decisions in the human brain. *Nature Neuroscience*, v. 11, p. 543-545, 2008.

TAYLOR, Joan E. *Philo of Alexandria: on the contemplative life*. Leiden: Brill, 2020.

YATES, Frances A. *The Rosicrucian enlightenment*. London; New York: Routledge, 2002.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *